MEUS VERSOS D’OUTRORA
(missiva)
P/ Céuzinho:
Meus versos d’outrora que oferecia enriquecendo com o consolo
das Almas que nesse tempo ido me escutavam os caracteres de timbre aveludado,
gasto e rouco no fino fluir do fumo dos cigarros com a mágoa que agora lhes
desnudo para afinal, em silêncio, tombar no verde da idade sem que me valha a
fortuna! Meus versos traíram-me. Não são mais meus…. Aqui, confessional, assumo
que andam no timbre das canções, essas que caprichosamente me embalam no
perpetuar da voz que já não é minha. Não me querem a companhia. Destruído no
silêncio vou no céuzinho luminoso buscar a frescura ao orvalhar. Os pássaros já
chilreiam… são meus confidentes. Ah, Céu sem deuses nem pátria. Ah Céu de voz
falada e segredada no rebusco da voz onde procuro alimento. Não sabe. Não sabe,
quiçá, do amor que lhe tenho!!!
Meus versos d’outrora são chorados ao ouvido desse Céuzinho endeusado.
Há Poesia nisso tudo… há amor poético… há choro agridoce e lábios para
saciar-me lambendo desse mesmo sal que como Pessoa adivinhou “são lágrimas de
Portugal”… esse sal sem eira nem beira nunca está comigo e é minha companhia. Escuta-me
à minha beira no murmurar da voz e escuta. Sim, escuta as mágoas dum Poeta
comprometido com o alheio e afinal tão só e nem é feio! Sou eu!!!
Meus versos d’outrora, vou buscar as palavras à vossa
sepultura que resgato da memória e concebo-me génio mas não o sou. Não. Basta de
deuses depostos. País sem pátria que invalida os seus próprios filhos! Se pudesse
cuspia-lhe!!!
Bom dia, Céu!!!
Os deuses não são maiores do que o homem.
O meu caminho caiu e fragmentou-se na aurora. Estou triste e
sorrio. Afinal sou doido não é?! Não. Não é sacanas. Sou lúcido. É a vossa alma
embriagada que vos ofusca o olhar do entendimento. Não sabem nada. Quem sabe
alguma coisa afinal?! Semi - deuses em poltronas vazias. Vou cuspir na cara da
fama e deleitar-me a rir, sozinho no Céuzinho… leito da minha voz e confessar
tudo isto…. Ou não?! Quem sabe…. Quem sabe não.
O sol raiou. Vou esconder-me do mundo no meu silêncio buçal
e, cantar minha glória nas canções que não interpreto. Meus versos d’outrora…
meus versos…. Chove!
06-03-2019
07:00 horas